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	<title>Casos em Psiquiatria Forense &#187; artigo 155 &#8211; furto</title>
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	<description>Psiquiatria e Psicologia Forense - casos clínicos</description>
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		<title>UMA HISTÓRIA DE AMOR</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 18:17:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 155 - furto]]></category>
		<category><![CDATA[Crimes]]></category>
		<category><![CDATA[F70 - retardo mental]]></category>
		<category><![CDATA[Transtornos mentais]]></category>

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		<description><![CDATA[Abro o processo de Mizael procurando logo a denúncia. Furtou algumas latas de cera de um supermercado. Já sei, penso: iria vendê-las para comprar crack. Meu serviço, por incrível que pareça, às vezes é repetitivo e entediante. O processo de Mizael é de cessação de periculosidade. Chamo Mizael à sala. É um senhor com mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Abro o processo de Mizael procurando logo a denúncia. Furtou algumas latas de cera de um supermercado. Já sei, penso: iria vendê-las para comprar crack. Meu serviço, por incrível que pareça, às vezes é repetitivo e entediante.</p>
<p>O processo de Mizael é de cessação de periculosidade. </p>
<p>Chamo Mizael à sala. É um senhor com mais de 40 anos, sem tipo de viciado. Começo coletando alguns dados básicos, como nível educacional, história ocupacional etc. Quando questiono sobre sua vida afetiva, Mizael me conta que acha que sua namorada está traindo-o. Com base em quê? Ele me conta sua estranha teoria: &#8220;Quando transo com ela, não sai esperma dela.&#8221; Ahn? &#8220;É, aquela coisa branca. Da outra, que eu morei com ela muito tempo, sempre saía. Essa agora só me visita uma vez por semana, e não sai nada. Então ela está me traindo.&#8221; </p>
<p>&#8220;E no dia que eu conheci ela, ela já foi pra cama comigo. E no final me pediu 30 reais. Sempre ela me pede dinheiro&#8230;&#8221;</p>
<p>Bem, Mizael, com ou sem esperma, eu diria (mas não para você) que ela deve mesmo estar saindo com outros&#8230; </p>
<p>&#8220;Eu sou muito ciumento!&#8221; O verdadeiro objeto (literalmente) de amor de Mizael, entretanto, é outro. Descubro quando vou questionar o seu crime.</p>
<p>&#8220;Roubei a cera pra lustrar minhas bicicletas.&#8221;</p>
<p>Mas quantas bicicletas você tinha, para precisar de tanta cera?</p>
<p>&#8220;Nessa época aí, não lembro. Mas já cheguei a ter umas 30. Mas a Polícia levou tudo. Eram roubadas.&#8221;</p>
<p>Você as revendia?</p>
<p>&#8220;Não! Nunca tive coragem. Panhava amor nelas&#8230;&#8221;</p>
<p>Amor?</p>
<p>&#8220;É, eu lustrava elas, cuidava com carinho. Minha mulher tinha ciumeira danada disso, porque tinha dia que eu dormia com as bicicletas em vez de dormir com ela.&#8221;</p>
<p>Você, hum, fazia algo com elas?</p>
<p>&#8220;Não, só alisava.&#8221;</p>
<p>Quando foi, digamos, sua primeira vez?</p>
<p>&#8220;Foi com 18 anos. Peguei uma emprestada e não devolvi. Aí peguei gosto, e comecei a roubar mais. Fiquei conhecido na minha cidade. Mizael Monark, ladrão de bicicletas. Mas eu prefiro Caloi, com o pneu grosso. Não gosto dessas bicicletas novas, de marcha. Eu cuidava muito bem delas, trocava o aro, deixava novinhas. Quando eu era solto, o pessoal que me conhecia já escondia as bicicletas, eu era famoso.&#8221;</p>
<p>Só por curiosidade&#8230; Nunca te roubaram uma bicicleta, não?</p>
<p>&#8220;Já, uma Monark vermelha, linda demais. Chorei, sofri muito&#8230;&#8221; </p>
<p>E hoje? </p>
<p>&#8220;A Polícia disse que qualquer hora eu ia morrer. Aí eu pensei e resolvi parar. Minha família fez uma vaquinha e me deram três bicicletas. Mas duas eu nem uso, tenho nem coragem de sujar. Nem se me dessem um carro eu trocaria.&#8221;</p>
<p>Mas e quando passa perto de uma bicicleta, o que sente?</p>
<p>&#8220;Sinto vontade, mas não posso. Tem um tempo já que eu não roubo. Não vou fazer isto mais não. Não quero morrer. Vou ficar só com as minhas mesmo. Têm nota fiscal e tudo&#8230;&#8221;</p>
<p>Penso: as notas fiscais são as certidões de casamento do polígamo Mizael com suas amadas.</p>
<p>O primo de Mizael, que o acompanha, confirma: &#8220;Ele parou mesmo com esta besteira.&#8221;</p>
<p>Poxa, não é besteira. É uma história de amor. Há quem tenha fixação por carros antigos. E os colecione. Mizael só é mais modesto e não tem dinheiro&#8230;</p>
<p>Mas, mesmo com certo pesar no coração, ele agora se comporta. Periculosidade cessada, concluo. Ao menos em relação às bicicletas. Quanto à namorada, não sei o que Mizael, que possui um retardo mental leve, fará quando descobrir que andam mesmo pedalando na sua magrela&#8230;</p>
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</div>
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		<title>MENDIGOS GORDOS</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 17:06:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 155 - furto]]></category>
		<category><![CDATA[Crimes]]></category>
		<category><![CDATA[F14.2 - dependência de crack]]></category>
		<category><![CDATA[Transtornos mentais]]></category>

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		<description><![CDATA[Rodrigo é dependente de drogas e foi preso por furto. Arrancava um padrão de energia &#8211; aqueles medidores que ficam do lado de fora de casa, onde os técnicos da companhia elétrica verificam o consumo mensal. Um novo custa 600 reais &#8211; Rodrigo venderia por 90 e compraria crack com o dinheiro. O padrão que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Rodrigo é dependente de drogas e foi preso por furto. Arrancava um padrão de energia &#8211; aqueles medidores que ficam do lado de fora de casa, onde os técnicos da companhia elétrica verificam o consumo mensal. Um novo custa 600 reais &#8211; Rodrigo venderia por 90 e compraria crack com o dinheiro. </p>
<p>O padrão que furtava era da casa de sua mãe, isto é, da própria casa. Comentou o policial que o acompanhava à perícia: &#8220;Roubar da mãe não é crime, mas o padrão pertence à companhia de energia&#8230;&#8221;</p>
<p>Mais um crime bobo gerando um processo volumoso. </p>
<p>Rodrigo mora em uma cidade pequena e, nestas cidades, geralmente não se tem acesso a drogas. Involuntariamente, o dependente preso nestas cadeias acaba sendo submetido a uma espécie de tratamento contra a dependência. É obrigado a conviver com sua abstinência, suportá-la e superá-la. Seria uma grande oportunidade de abandonar as drogas. Porém, não é um tratamento voluntário e o preso não encara o processo como uma oportunidade. Ao sair, volta a conviver com os amigos usuários e o consumo dos entorpecentes se restabelece. Rodrigo mesmo diz que não pensa em parar de usar o crack: &#8220;Talvez quando eu arrumar uma mulher&#8230;&#8221; Desde que ela não seja usuária, não é?</p>
<p>A entrevista com Rodrigo segue relativamente bem. Não notei sinais de grandes sequelas mentais por conta do uso do crack. Porém, o policial que com ele convive me disse que Rodrigo &#8220;tem hora que não diz coisa com coisa. Agora mesmo tava falando que quer matar gente gorda.&#8221;</p>
<p>Lembrei-me imediatamente do último <a href="http://oserialkiller.com.br/as-esganadas-jo-soares/" target="_blank">livro de Jô Soares, As Esganadas</a>, onde o personagem principal é um serial killer de gordas. </p>
<p>Vamos lá, então, investigar esta ponta desfiada pelo policial&#8230; Que história é esta, Rodrigo?</p>
<p>&#8220;Não, não é isso&#8230; É o seguinte. Tem o vagabundo que rouba, né? E tem o vagabundo que fica pedindo, pedindo comida. Só que tem uns que pedem comida o tempo inteiro! O cara ganhou comida em uma casa, vai e pede na outra. Fica comendo o dia inteiro. Pode reparar que só tem dois tipos de mendigos: os magros, noiadão, e os gordos. Esses gordos são muito safados, porque o cara já ganhou comida! É como se tivesse roubando comida do outro, entende? Porque aí vai o outro magro na casa pedir comida e não ganha, porque o cara fala: &#8216;Ah, já dei comida hoje!&#8217; Aí fica o cara passando fome por conta desses mendigos gordos safados!&#8221;  </p>
<p>Faz sentido! </p>
<p>&#8220;Pode reparar, não tem mendigo médio, ou é magrinho ou é gordo.&#8221; </p>
<p>Isto nunca reparei, mas prestarei atenção a partir de agora, Rodrigo.</p>
<p>Que há ética no crime, não é novidade. Os filósofos deveriam se debruçar mais sobre ela, mas aparentemente, quando querem definir a essência do humano, se esquecem que loucos e criminosos também fazem parte da raça. Ou não?</p>
<p>Pergunto:</p>
<p>- E você pretende matar os mendigos gordos?</p>
<p>&#8220;Não é pretender&#8230; É só vontade, entende?&#8221;</p>
<p>Compreendo, mas não entendo. Me entendem?</p></div>
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		<title>A ESSÊNCIA DO LADRÃO</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Aug 2011 19:26:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 155 - furto]]></category>
		<category><![CDATA[F31 - transtorno bipolar do humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Tânia possui transtorno bipolar do humor. O diagnóstico foi fácil: trouxe alguns laudos (já esteve até internada) e, na própria entrevista, estava levemente exaltada, falando um pouco alto, com o pensamento um pouco confuso, às vezes rindo fora de hora. É acusada de desvio de dinheiro de um banco, no qual trabalhava. &#8220;Mas não foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Tânia possui transtorno bipolar do humor. O diagnóstico foi fácil: trouxe alguns laudos (já esteve até internada) e, na própria entrevista, estava levemente exaltada, falando um pouco alto, com o pensamento um pouco confuso, às vezes rindo fora de hora.</p>
<p>É acusada de desvio de dinheiro de um banco, no qual trabalhava. &#8220;Mas não foi nem 2 mil reais!&#8221;, ela me repetiria umas três vezes. Não sei se para me convencer que não era um crime assim tão importante ou se o eco era um sintoma da hipomania (o nome técnico deste humor exaltado). </p>
<p>O réu frequentemente pensa que o psiquiatra, de alguma forma, é o juiz. Assim, tentam convencê-lo a inocentá-lo, diminuir sua pena. &#8220;Mas não foi nem 2 mil reais!&#8221; Mesmo se tivessem sido 10 mil ou 100 mil, minhas conclusões, neste caso, seriam as mesmas.</p>
<p>A primeira, como dito, é que ela tinha um transtorno na época do fato. </p>
<p>Porém, o transtorno bipolar, na verdade, é tripolar: há uma fase depressiva, uma fase maníaca (exaltada) e uma fase neutra, sadia. O furto seria mais provável na fase maníaca que na depressiva. Na depressiva, seria mais esperado que a paciente desse seu dinheiro a alguém, pensando que iria morrer logo, ou algo assim.</p>
<p>A parte da entrevista que mais gosto é o momento de colher a versão do fato com o réu. É esta hora a minha chance de realmente entrar em contato com um criminoso, entrar em sua mente, entender o que leva o indivíduo a cruzar a linha. O pensamento de Tânia era confuso, mas, ao descrever o fato, surpreendeu-me: lembrava-se de detalhes (o crime ocorreu há vários anos &#8211; ah, a Justiça brasileira&#8230;), narrou a sequência de eventos com exatidão.</p>
<p>Isto é um indício extremamente forte de que, na época dos fatos, não estava maníaca, e sim eutímica (humor normal), pois, se estivesse maníaca, dificilmente se lembraria dos acontecimentos com exatidão.</p>
<p>E mais: Tânia conseguiu racionalizar todo o ocorrido. Foi um furto consciente. &#8220;Vi que minha colega tava pegando. Resolvi pegar também, um pouquinho. Não foi nem 2 mil reais!&#8221;</p>
<p>- Me explique melhor&#8230; Você sabia que era crime, que podia acontecer algo errado&#8230;</p>
<p>Ainda faltava uma pecinha, para eu entender o que levou aquela jovem mulher a se tornar uma ladra. Ou uma ladrazinha (não foram nem 2 mil reais!)&#8230;</p>
<p>- Eu tinha um caso com o gerente. Achei que, se alguém percebesse, eu tava coberta&#8230;</p>
<p>Bingo! </p>
<p>Eutímica. Entendimento do caráter ilícito dos fatos preservado, assim como a capacidade de determinar-se de acordo com este entendimento. </p>
<p>Em resumo: fez porque quis.</p>
<p>(Porém, estando doente agora, necessita tratamento, e não cadeia.)
</p></div>
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		<title>UM HOMEM SÉRIO</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Jun 2011 08:07:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 155 - furto]]></category>
		<category><![CDATA[F14.2 - dependência de crack]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando vi Marconi, achei que tivesse alguma síndrome, algum grau de retardo mental. Seus olhos pareciam o de um chinês com uma &#8220;leve síndrome de Down&#8221;. Me enganei. Marconi falava baixo e pausadamente, mas tinha inteligência normal. Tem epilepsia desde a infância, mas, tratada, não afetou sua cognição. Rapaz sério, não sorriu nenhuma vez durante [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Quando vi Marconi, achei que tivesse alguma síndrome, algum grau de retardo mental. Seus olhos pareciam o de um chinês com uma &#8220;leve síndrome de Down&#8221;. Me enganei. Marconi falava baixo e pausadamente, mas tinha inteligência normal. Tem epilepsia desde a infância, mas, tratada, não afetou sua cognição. </p>
<p>Rapaz sério, não sorriu nenhuma vez durante a entrevista. Deu-me a impressão que, paradoxalmente, considerava seus crimes de furto como algo muito sério, algo sobre o qual não se deve rir.  </p>
<p>Apesar dos medicamentos, Marconi ainda tem crises convulsivas. Por conta delas, o demitem dos empregos que arruma. Marconi tem uma dependência leve de crack e como a mãe não lhe dá dinheiro para o uso da droga, ocasionalmente ele furta algo para vender e poder comprar o entorpecente. &#8220;Furto bicicleta, essas coisas&#8230; Só bobeirinhas; nunca coloquei a mão em uma arma&#8230;&#8221;</p>
<p>Marconi foi pego duas vezes furtando bicicletas. Esta nesta perícia por conta da segunda vez que foi enquadrado. </p>
<p>Acho que o que mais me espantou nesta perícia foi me dar conta de que ainda há pessoas que deixam bicicletas expostas sem cadeados! Mas Marconi mora em uma cidade pequena, onde o medo constante de ser vítima de um furto ou de um roubo ainda não chegou &#8211; embora Marconi venha fazendo sua parte&#8230;</p>
<p>Um dos vários indícios de uma dependência de crack é a venda de objetos pessoais. Os dependentes que não querem entrar para o crime começam vendendo um tênis, um aparelho de som. Quando não têm mais o que vender, começam a pegar dinheiro na bolsa da mãe. A mãe começa a ficar esperta &#8211; então eles vendem o micro-ondas. </p>
<p>Tecnicamente, já estão na vida criminal. Afinal, pegar o dinheiro da mãe é furto. Mas a mãe não irá denunciá-lo, então os primeiros crimes nem são sentidos como crimes. Para eles, ainda estão agindo na honestidade. Ser dependente não é o mesmo que ser bandido. A maioria dos dependentes de crack era honesta antes de provar a droga. Mas esta substância tem um efeito devastador na moral, na ética. </p>
<p>Marconi mesmo era um rapaz sério. (Ainda é &#8211; ele não sorri de jeito nenhum!) Quando começou a ficar dependente do crack, seguiu então o caminho dos homens de bem. Um dia em que estava fissurado por uma pedrinha, e sem um centavo no bolso, resolveu vender umas roupas. Pegou algumas peças e ia a um brechó. No caminho, entretanto, encontrou um conhecido, que carregava uma gaiola com um pássaro. Conversaram um pouco e o conhecido propôs trocar as roupas de Marconi pelo pássaro. Marconi aceitou a proposta.</p>
<p>Andando com a gaiola, dois quarteirões depois os policiais pegaram Marconi. O pássaro havia sido furtado em uma casa, por aquele conhecido dele.  </p>
<p>- Que raça era este pássaro, Marconi?<br />
- Não sei&#8230;<br />
- Que cor era?<br />
- Não lembro&#8230;</p>
<p>Fiquei sem entender esta maldita troca. Talvez eu estava enganado sobre Marconi não ter um retardo mental leve. </p>
<p>- O que você queria com este pássaro?<br />
- Ele me disse que valia muito&#8230;</p>
<p>Foi a primeira vez que Marconi foi preso. Na cadeia, finalmente, arrumou emprego: faxinava a cela e, em troca, recebia drogas. Saiu um pouco mais dependente do que entrou. E já não tinha mais suas roupas para vender&#8230;</p>
<p>A dependência de Marconi ainda era leve, entretanto, quando foi pego furtando esta segunda bicicleta. Não usava a droga todo dia. Até porque era um homem sério e, não tendo dinheiro, preferia não furtar. &#8220;Tomava um banho, ia fazer alguma coisa pra esquecer&#8230;&#8221; Mas, passados uns dois dias sem a droga, a vontade de usá-la voltava imensa. </p>
<p>Considerei que a dependência apenas reduziu, mas não aboliu, seu controle de impulsos, sua capacidade de determinar-se a não cometer os furtos. O laudo deve reduzir sua pena, mas não livrar Marconi da cadeia. Quando for solto, é possível que já esteja mais dependente e aí, bem, a venda de cadeados de bicicletas naquela cidade deverá ter um grande impulso&#8230;
 </p></div>
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