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A ESSÊNCIA DO LADRÃO

Tânia possui transtorno bipolar do humor. O diagnóstico foi fácil: trouxe alguns laudos (já esteve até internada) e, na própria entrevista, estava levemente exaltada, falando um pouco alto, com o pensamento um pouco confuso, às vezes rindo fora de hora.

É acusada de desvio de dinheiro de um banco, no qual trabalhava. “Mas não foi nem 2 mil reais!”, ela me repetiria umas três vezes. Não sei se para me convencer que não era um crime assim tão importante ou se o eco era um sintoma da hipomania (o nome técnico deste humor exaltado).

O réu frequentemente pensa que o psiquiatra, de alguma forma, é o juiz. Assim, tentam convencê-lo a inocentá-lo, diminuir sua pena. “Mas não foi nem 2 mil reais!” Mesmo se tivessem sido 10 mil ou 100 mil, minhas conclusões, neste caso, seriam as mesmas.

A primeira, como dito, é que ela tinha um transtorno na época do fato.

Porém, o transtorno bipolar, na verdade, é tripolar: há uma fase depressiva, uma fase maníaca (exaltada) e uma fase neutra, sadia. O furto seria mais provável na fase maníaca que na depressiva. Na depressiva, seria mais esperado que a paciente desse seu dinheiro a alguém, pensando que iria morrer logo, ou algo assim.

A parte da entrevista que mais gosto é o momento de colher a versão do fato com o réu. É esta hora a minha chance de realmente entrar em contato com um criminoso, entrar em sua mente, entender o que leva o indivíduo a cruzar a linha. O pensamento de Tânia era confuso, mas, ao descrever o fato, surpreendeu-me: lembrava-se de detalhes (o crime ocorreu há vários anos – ah, a Justiça brasileira…), narrou a sequência de eventos com exatidão.

Isto é um indício extremamente forte de que, na época dos fatos, não estava maníaca, e sim eutímica (humor normal), pois, se estivesse maníaca, dificilmente se lembraria dos acontecimentos com exatidão.

E mais: Tânia conseguiu racionalizar todo o ocorrido. Foi um furto consciente. “Vi que minha colega tava pegando. Resolvi pegar também, um pouquinho. Não foi nem 2 mil reais!”

- Me explique melhor… Você sabia que era crime, que podia acontecer algo errado…

Ainda faltava uma pecinha, para eu entender o que levou aquela jovem mulher a se tornar uma ladra. Ou uma ladrazinha (não foram nem 2 mil reais!)…

- Eu tinha um caso com o gerente. Achei que, se alguém percebesse, eu tava coberta…

Bingo!

Eutímica. Entendimento do caráter ilícito dos fatos preservado, assim como a capacidade de determinar-se de acordo com este entendimento.

Em resumo: fez porque quis.

(Porém, estando doente agora, necessita tratamento, e não cadeia.)

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