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TROÇO COMPLICADO!
Posted by Fernando César in F42 - transtorno obsessivo-compulsivo, Perícias cíveis on August 20, 2011
Radamés trabalhava em um banco. Tinha que ser bem esperto na contagem do dinheiro. Se errasse… bem, bancos não gostam de tomar prejuízo… É atribuída ao dramaturgo Bertolt Brecht a seguinte frase: O que é roubar um banco, comparado a abrir um?
Ao final do dia, então, com medo, Radamés refazia as contas, conferia mais uma vez o caixa, e mais uma vez…
Acabou desenvolvendo um transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), segundo atestam psiquiatras que o vêem há alguns anos. Radamés trouxe os laudos. Não trabalha há 6 anos. Estava “encostado” pelo INSS, até que o governo resolveu que Radamés tinha condições de voltar a trabalhar. Radamés contesta o INSS e a peleja caiu em minhas mãos.
Radamés conta uma linda história de transtorno obsessivo-compulsivo. Caso de livro. “Não tenho condições de trabalhar porque demoro horas para chegar a um lugar, por conta de tudo o que tenho de verificar antes de sair de casa… Se a janela está fechada, se a porta foi trancada… E passo horas no banho… Será que já lavei as costas? Vou e lavo de novo…”
Perícia é um troço complicado porque, se Radamés chegasse em meu consultório e contasse a mesma história, eu não lançaria a mínima suspeita sobre sua honestidade. No consultório, as pessoas vão porque querem se tratar – embora algumas, no final da consulta, lancem aquela capciosa pergunta: Pode me afastar do trabalho por uns dias?
A mesmíssima história, portanto, é vista de maneira bem diferente pelo clínico e pelo perito. O perito começa a se fazer perguntas como: mas que transtorno é este que seis anos após parar de trabalhar, após seis anos se tratando, não sara, não melhora?
Eu não acredito que Radamés esteja inventando completamente a doença. Pensar isto seria pensar: ele simplesmente não quer trabalhar. Porém, não trabalhar também dá trabalho! Consultas, perícias, ganhos reduzidos… Ninguém quer isto também. Uns dias de atestado, ótimo, quem não quer? A preguiça também é uma doença, costumo dizer, por isto não vejo com desprezo ou raiva, como alguns colegas, aquele paciente que quer uns dias de folga. Mas ter 40 ou 45 anos e querer se aposentar indicaria um funcionamento psicológico muito mais doentio. Em troca de não trabalhar, ganhar pouco, ser carimbado como inválido, ser visto como um possível impostor…
Perícia é um troço complicado porque colegas viram Radamés e o diagnosticaram como portador de transtorno obsessivo-compulsivo – e agora vou eu contrariar todos e dizer que ele não tem nada?
Mas não acredito que Radamés invente por completo seus sintomas. É possível que tenha desenvolvido o TOC por conta da pressão do trabalho? Sim. É possível que o TOC tenha permanecido por todos estes anos, mesmo com tratamento? Sim.
Por outro lado, é possível que seja tão incapacitante? Não acredito, no caso de Radamés. Olho para ele e não sinto honestidade completa. Acho que está exagerando. Em minha opinião, ele tem sim sintomas, algo que dificulta mesmo trabalhar, mas, para não correr o risco de acharem que tem condições plenas de voltar à labuta, exagera o sofrimento, na esperança de convencer de que não tem condição alguma.
Não tenho evidências, portanto, para concluir por uma incapacidade completa. Muito menos para dizer que a incapacidade parcial seja permanente, eterna, pois não sei se toda espécie de tratamento foi tentada.
Infelizmente, portanto, terei de contrariar o desejo de Radamés. Perícia é um troço complicado…