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OLHOS NO OLHO

Na capa de cada processo, além do nome do réu, uma etiqueta informa o crime o qual é acusado. Se é furto ou roubo, o psiquiatra não sabe o que esperar na perícia: pode se deparar desde com um dependente de drogas até com um esquizofrênico. O mesmo se o crime é homicídio, estupro etc.

Porém, quando a acusação é de estupro de vulnerável (praticar sexo com alguém com menos de catorze anos), uma única hipótese diagnóstica pisca reluzente na mente do psiquiatra: pedofilia, pedofilia, pedofilia.

O senhor Robério, com quase 60 anos, estuprou repetidamente a neta de sua mulher, uma garotinha de oito anos, segundo a acusação.

A palava estupro para casos como este é um pouco inadequada, porque transmite a ideia de violência física, o que não houve, segundo o depoimento da garota. Não que o consentimento da vítima torne o ato bonito, mas abuso talvez fosse um termo mais afinado com o crime.

A imprensa, por sua vez, gosta de chamar este crime de pedofilia. Pedofilia, em Psiquiatria, é o desejo preferencial por sexo com crianças. Mas não existe um crime com este nome. Logo, em termos técnicos, pedofilia não é crime. É apenas um transtorno mental.

Mas não entremos nesta discussão, por ora. O que interessa é que Robério nega tudo.

Peço ao policial que deixe a sala de perícias por um momento. Às vezes isto ajuda.

- Você nem mesmo a alisou, deu um beijo?
- Coloquei no colo e beijei como beijo qualquer criança…

Robério possui um leve estrabismo divergente (um olho aponta para fora) e, não fosse suficiente, também tem nistagmo, um tremor nos olhos. Conversar olhos nos olhos é importante quando se busca a verdade. No caso de Robério, parecia que seria bem difícil encontrá-la, se ele realmente houvesse abusado da garota.

- Por que te acusaram, então?
- Um médico me contou que outro médico deu dois piques na pererequinha dela, pra parecer que fui eu.

Aí quem arregala os olhos sou eu. Que história é esta?!

- E queriam te incriminar por quê?
- Não sei. A menina depois disse que lá no Conselho Tutelar ameaçaram bater nela se ela não falasse que fui eu.

Tento firmar meus olhos no olho esquerdo do senhor Robério, o olho dele que olha para mim. Pergunto-me se ele tem esperanças de que alguém acredite nesta teoria da conspiração.

A verdade é um risco para o criminoso. Negando a acusação, torna mais difícil um diagnóstico e tem reduzidas suas chances de se beneficiar de uma diminuição da pena, caso venha a ser condenado. Confessando, aumenta as chances da redução de pena, mas também aumenta as chances de ser condenado.

Teoria dos jogos aplicada. É melhor garantir cinco anos de pena ou arriscar um dez-ou-nada? Aparentemente, o senhor Robério apostou na segunda hipótese.

Eu, intimamente, aposto todas as fichas que ele cometeu os abusos. Mas fiquei sem evidência nenhuma, no exame, para caracterizá-lo como pedófilo. Solicitei um psicodiagnóstico. Um casal de psicólogos o avaliaria por três dias. De quatro olhos demorados sobre o seu olho esquerdo a verdade não deveria escapar.

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