Archive for category F70 – retardo mental
UMA HISTÓRIA DE AMOR
Posted by Fernando César in artigo 155 - furto, Crimes, F70 - retardo mental, Transtornos mentais on January 24, 2012
O processo de Mizael é de cessação de periculosidade.
Chamo Mizael à sala. É um senhor com mais de 40 anos, sem tipo de viciado. Começo coletando alguns dados básicos, como nível educacional, história ocupacional etc. Quando questiono sobre sua vida afetiva, Mizael me conta que acha que sua namorada está traindo-o. Com base em quê? Ele me conta sua estranha teoria: “Quando transo com ela, não sai esperma dela.” Ahn? “É, aquela coisa branca. Da outra, que eu morei com ela muito tempo, sempre saía. Essa agora só me visita uma vez por semana, e não sai nada. Então ela está me traindo.”
“E no dia que eu conheci ela, ela já foi pra cama comigo. E no final me pediu 30 reais. Sempre ela me pede dinheiro…”
Bem, Mizael, com ou sem esperma, eu diria (mas não para você) que ela deve mesmo estar saindo com outros…
“Eu sou muito ciumento!” O verdadeiro objeto (literalmente) de amor de Mizael, entretanto, é outro. Descubro quando vou questionar o seu crime.
“Roubei a cera pra lustrar minhas bicicletas.”
Mas quantas bicicletas você tinha, para precisar de tanta cera?
“Nessa época aí, não lembro. Mas já cheguei a ter umas 30. Mas a Polícia levou tudo. Eram roubadas.”
Você as revendia?
“Não! Nunca tive coragem. Panhava amor nelas…”
Amor?
“É, eu lustrava elas, cuidava com carinho. Minha mulher tinha ciumeira danada disso, porque tinha dia que eu dormia com as bicicletas em vez de dormir com ela.”
Você, hum, fazia algo com elas?
“Não, só alisava.”
Quando foi, digamos, sua primeira vez?
“Foi com 18 anos. Peguei uma emprestada e não devolvi. Aí peguei gosto, e comecei a roubar mais. Fiquei conhecido na minha cidade. Mizael Monark, ladrão de bicicletas. Mas eu prefiro Caloi, com o pneu grosso. Não gosto dessas bicicletas novas, de marcha. Eu cuidava muito bem delas, trocava o aro, deixava novinhas. Quando eu era solto, o pessoal que me conhecia já escondia as bicicletas, eu era famoso.”
Só por curiosidade… Nunca te roubaram uma bicicleta, não?
“Já, uma Monark vermelha, linda demais. Chorei, sofri muito…”
E hoje?
“A Polícia disse que qualquer hora eu ia morrer. Aí eu pensei e resolvi parar. Minha família fez uma vaquinha e me deram três bicicletas. Mas duas eu nem uso, tenho nem coragem de sujar. Nem se me dessem um carro eu trocaria.”
Mas e quando passa perto de uma bicicleta, o que sente?
“Sinto vontade, mas não posso. Tem um tempo já que eu não roubo. Não vou fazer isto mais não. Não quero morrer. Vou ficar só com as minhas mesmo. Têm nota fiscal e tudo…”
Penso: as notas fiscais são as certidões de casamento do polígamo Mizael com suas amadas.
O primo de Mizael, que o acompanha, confirma: “Ele parou mesmo com esta besteira.”
Poxa, não é besteira. É uma história de amor. Há quem tenha fixação por carros antigos. E os colecione. Mizael só é mais modesto e não tem dinheiro…
Mas, mesmo com certo pesar no coração, ele agora se comporta. Periculosidade cessada, concluo. Ao menos em relação às bicicletas. Quanto à namorada, não sei o que Mizael, que possui um retardo mental leve, fará quando descobrir que andam mesmo pedalando na sua magrela…
QI 70, MODÉSTIA À PARTE
Posted by Fernando César in artigo 121 - homicídio, F70 - retardo mental on July 12, 2011
Segundo a denúncia, primeiramente acertou a cabeça da mulher com uma cadeira. Com ela caída no chão, pisou sobre sua cabeça e, com uma faca, cortou seu pescoço. Sangrou pouco, mas morreu logo. Ele voltou para o bar, onde bebia antes de ter ido para casa e ter mudado seu estado civil de casado para viúvo.
O policial que o acompanhava à perícia psiquiátrica que agora acabava comentou: “O crime dele, modéstia à parte, foi bárbaro.” Uma frase estranha, ficou ecoando na minha cabeça alguns segundos.
Mas tive de sair de meus devaneios linguísticos e voltar à minha função. Na Psiquiatria Forense, há basicamente duas perguntas a serem respondidas pelo perito: (1) O acusado tinha algum transtorno mental na época do crime? (2) Se sim, o crime teve alguma relação com este transtorno?
Dalmir estava bastante bêbado no momento do crime. De vez em quando ficava bem embriagado. Mas não era alcoolista. Se fosse, sua situação estaria melhor. E a minha também, porque o caso seria mais simples. Estava complicado porque Dalmir não era alcoolista, mas, aparentemente, parecia ter algo.
Tinha o pensamento empobrecido, respondia sempre com frases curtas. Frequentou a escola, mas não aprendeu a ler ou a escrever. Perguntei em que ano estávamos, ele demonstrou dúvidas e errou por um: “2010?” Um cheirinho de retardo mental leve nestes dados.
Por outro lado, um cheiro forte, desde o início da entrevista, de uma doença construída pelo psiquiatra e pelo periciando. O réu sabe que pode ser bom ser considerado doente. O psiquiatra faz as perguntas certas para que ele construa a história. Quando as pessoas tomam conhecimento de minha profissão, comumente perguntam: “Deve ter muito cara lá fingindo de louco, né?” Nem tanto. O mais comum é apenas um exagero de sintomas já existentes. Não é um pecado grave. Não-criminosos também fazem isto com frequência: ainda não estou tão bem recuperado da gripe, mas aumentarei um pouquinho o drama para ficar só mais hoje em casa…
Senti que havia este exagero desde o começo porque toda bola que eu levantava, Dalmir cortava. Problemas na gestação? Sim. Demorou para andar e falar? Sim. Doenças na infância? “Ficava naquele morre-não-morre…”
O psiquiatra tem de tentar separar o exagero do real. Não é fácil. O risco é tomar o caminho oposto: rotular a história toda como simulação e não conseguir captar o que é real.
Mas um gênio Dalmir também não era. Ou não seria lavrador. Ou sua identidade conteria uma bela assinatura, ao invés de um polegar. Porém, se fosse retardado, não conseguiria lidar com dinheiro, arrumar esposa e, especialmente, fingir-se de retardado. Tinha uma inteligência normal. Era inculto, certamente, mas cultura e inteligência são coisas diferentes, embora possam nos confundir.
O diagnóstico de retardo mental leve, através de testes objetivos, é apontado quando o QI está entre 50 a 69. O QI de Dalmir deveria ser 70…
“Não lembro o que aconteceu. Acordei já na cadeia. Eu gostava dela. Agora eu penso em me assassinar…”, finalizou Dalmir.
Outra frase estranha. Por que não “me matar”, “me suicidar”? Obviamente, hora ainda mais inapropriada para as divagações linguísticas. Dalmir sairia da perícia sem nenhuma perspectiva de benefício, mas ao menor com uma recomendação para que sua depressão atual fosse tratada. Antes que conseguisse se assassinar.