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	<title>Casos em Psiquiatria Forense &#187; Transtornos mentais</title>
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	<description>Psiquiatria e Psicologia Forense - casos clínicos</description>
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		<title>UMA HISTÓRIA DE AMOR</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 18:17:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 155 - furto]]></category>
		<category><![CDATA[Crimes]]></category>
		<category><![CDATA[F70 - retardo mental]]></category>
		<category><![CDATA[Transtornos mentais]]></category>

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		<description><![CDATA[Abro o processo de Mizael procurando logo a denúncia. Furtou algumas latas de cera de um supermercado. Já sei, penso: iria vendê-las para comprar crack. Meu serviço, por incrível que pareça, às vezes é repetitivo e entediante. O processo de Mizael é de cessação de periculosidade. Chamo Mizael à sala. É um senhor com mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Abro o processo de Mizael procurando logo a denúncia. Furtou algumas latas de cera de um supermercado. Já sei, penso: iria vendê-las para comprar crack. Meu serviço, por incrível que pareça, às vezes é repetitivo e entediante.</p>
<p>O processo de Mizael é de cessação de periculosidade. </p>
<p>Chamo Mizael à sala. É um senhor com mais de 40 anos, sem tipo de viciado. Começo coletando alguns dados básicos, como nível educacional, história ocupacional etc. Quando questiono sobre sua vida afetiva, Mizael me conta que acha que sua namorada está traindo-o. Com base em quê? Ele me conta sua estranha teoria: &#8220;Quando transo com ela, não sai esperma dela.&#8221; Ahn? &#8220;É, aquela coisa branca. Da outra, que eu morei com ela muito tempo, sempre saía. Essa agora só me visita uma vez por semana, e não sai nada. Então ela está me traindo.&#8221; </p>
<p>&#8220;E no dia que eu conheci ela, ela já foi pra cama comigo. E no final me pediu 30 reais. Sempre ela me pede dinheiro&#8230;&#8221;</p>
<p>Bem, Mizael, com ou sem esperma, eu diria (mas não para você) que ela deve mesmo estar saindo com outros&#8230; </p>
<p>&#8220;Eu sou muito ciumento!&#8221; O verdadeiro objeto (literalmente) de amor de Mizael, entretanto, é outro. Descubro quando vou questionar o seu crime.</p>
<p>&#8220;Roubei a cera pra lustrar minhas bicicletas.&#8221;</p>
<p>Mas quantas bicicletas você tinha, para precisar de tanta cera?</p>
<p>&#8220;Nessa época aí, não lembro. Mas já cheguei a ter umas 30. Mas a Polícia levou tudo. Eram roubadas.&#8221;</p>
<p>Você as revendia?</p>
<p>&#8220;Não! Nunca tive coragem. Panhava amor nelas&#8230;&#8221;</p>
<p>Amor?</p>
<p>&#8220;É, eu lustrava elas, cuidava com carinho. Minha mulher tinha ciumeira danada disso, porque tinha dia que eu dormia com as bicicletas em vez de dormir com ela.&#8221;</p>
<p>Você, hum, fazia algo com elas?</p>
<p>&#8220;Não, só alisava.&#8221;</p>
<p>Quando foi, digamos, sua primeira vez?</p>
<p>&#8220;Foi com 18 anos. Peguei uma emprestada e não devolvi. Aí peguei gosto, e comecei a roubar mais. Fiquei conhecido na minha cidade. Mizael Monark, ladrão de bicicletas. Mas eu prefiro Caloi, com o pneu grosso. Não gosto dessas bicicletas novas, de marcha. Eu cuidava muito bem delas, trocava o aro, deixava novinhas. Quando eu era solto, o pessoal que me conhecia já escondia as bicicletas, eu era famoso.&#8221;</p>
<p>Só por curiosidade&#8230; Nunca te roubaram uma bicicleta, não?</p>
<p>&#8220;Já, uma Monark vermelha, linda demais. Chorei, sofri muito&#8230;&#8221; </p>
<p>E hoje? </p>
<p>&#8220;A Polícia disse que qualquer hora eu ia morrer. Aí eu pensei e resolvi parar. Minha família fez uma vaquinha e me deram três bicicletas. Mas duas eu nem uso, tenho nem coragem de sujar. Nem se me dessem um carro eu trocaria.&#8221;</p>
<p>Mas e quando passa perto de uma bicicleta, o que sente?</p>
<p>&#8220;Sinto vontade, mas não posso. Tem um tempo já que eu não roubo. Não vou fazer isto mais não. Não quero morrer. Vou ficar só com as minhas mesmo. Têm nota fiscal e tudo&#8230;&#8221;</p>
<p>Penso: as notas fiscais são as certidões de casamento do polígamo Mizael com suas amadas.</p>
<p>O primo de Mizael, que o acompanha, confirma: &#8220;Ele parou mesmo com esta besteira.&#8221;</p>
<p>Poxa, não é besteira. É uma história de amor. Há quem tenha fixação por carros antigos. E os colecione. Mizael só é mais modesto e não tem dinheiro&#8230;</p>
<p>Mas, mesmo com certo pesar no coração, ele agora se comporta. Periculosidade cessada, concluo. Ao menos em relação às bicicletas. Quanto à namorada, não sei o que Mizael, que possui um retardo mental leve, fará quando descobrir que andam mesmo pedalando na sua magrela&#8230;</p>
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</div>
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		<title>CHORO SEM LÁGRIMAS</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 17:48:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 121 - homicídio]]></category>
		<category><![CDATA[Crimes]]></category>
		<category><![CDATA[F60.2 - transtorno de personalidade anti-social]]></category>
		<category><![CDATA[Transtornos mentais]]></category>

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		<description><![CDATA[Ricardo matou a mulher. Segundo a denúncia, a estrangulou. Segundo ele, após uma discussão. A última, claro, de muitas. &#8220;Ela vinha mexendo muito com minha auto-estima, me chamava de inútil, perdi o controle. Saímos nos tapas, rolamos no chão&#8230; Quando vi, estava desmaiada&#8230; Depois vi que estava morta&#8230;&#8221; Contando isto, Ricardo apóia a cabeça na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Ricardo matou a mulher. Segundo a denúncia, a estrangulou. Segundo ele, após uma discussão. A última, claro, de muitas. &#8220;Ela vinha mexendo muito com minha auto-estima, me chamava de inútil, perdi o controle. Saímos nos tapas, rolamos no chão&#8230; Quando vi, estava desmaiada&#8230; Depois vi que estava morta&#8230;&#8221;</p>
<p>Contando isto, Ricardo apóia a cabeça na mesa e começa a chorar. Aguardo alguns segundos e faço outra pergunta. Ele levanta a cabeça para responder e, para minha surpresa, seus olhos estão secos, não há lágrima nenhuma. Hum, interessante, não?</p>
<p>Esta falsidade bate com outros aspectos da denúncia, que fala em &#8220;motivo fútil&#8221;, &#8220;sem chance de defesa&#8221;, &#8220;friamente&#8221;&#8230; Após matar a mulher, Ricardo amarrou seu corpo, colocou-o em um saco e o jogou em um rio. Foi então à casa da sogra e disse que a esposa estava desaparecida. </p>
<p>Ricardo tenta se explicar: &#8220;Eu não sabia o que fazer. Ia dizer o quê, que matei sua filha?&#8221;</p>
<p>Realmente, as denúncias às vezes são mais frias que os próprios criminosos. Comumente as acusações pintam os bandidos como psicopatas que agem sem motivo algum. Aliás, nem mesmo os psicopatas agem sempre por prazer, como pensa o senso comum. Geralmente seus atos são reações altamente desproporcionais a alguma contrariedade, a algum problema. </p>
<p>Que motivo frio teria Ricardo para matar a mulher? Ela não era rica, não havia dinheiro envolvido. A história que ele contava fazia sentido. O que destoava era apenas aquele choro sem lágrimas. </p>
<p>Continuo a perícia, buscando outras evidências de psicopatia. Até que pergunto a Ricardo sobre trabalho. &#8220;Sou aposentado, desde que sofri um acidente de moto. Perdi a audição de um ouvido e a visão de um olho. Com meu olho esquerdo não enxergo nada. Ficou estas sequelas. Com o olho que eu enxergo, eu não consigo chorar. Eu só choro com o olho que não enxerga.&#8221;</p>
<p>Naquele momento em que Ricardo levantou a cabeça, realmente ele passou um dedo sob o olho esquerdo. Não vi lágrima ali, mas teria sido Ricardo mais rápido em enxugá-la? Talvez, como sequela, o seu choro agora fosse apenas um sutil, quase imperceptível, molhar os olhos? </p>
<p>A frase ficou ecoando na sala por alguns segundos, poética, pois eu apenas pensava. &#8220;Eu só choro com o olho que não enxerga.&#8221;</p>
<p>O que ele vê não o faz chorar. Ele sofre pelo que não vê. </p>
<p>Um paradoxo freudiano ou oftalmológico? </p>
<p>E eu, o que via ali? Após analisar alguns documentos que ele trouxe, que comprovavam o acidente, as lesões e a aposentadoria, vi que tinha que dar um crédito a suas palavras. </p>
<p>O que, o paradoxo agora é forense, não o beneficiaria em nada. Se não era um psicopata, Ricardo não teria benefício algum, pois tampouco tinha qualquer outro transtorno mental. </p>
<p>Encerrada a perícia, imaginei a solidão que sentiria Ricardo, ao ser condenado e, mais uma vez, chorar sem lágrimas. Em um crime, sempre há duas vítimas. Uma já estava morta. A outra, Ricardo, iria amargar longos anos em uma cela. No abandono absoluto. Quem iria se dispor a amparar a sua aparente fingidez?
</p></div>
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		<title>MENDIGOS GORDOS</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jan 2012 17:06:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 155 - furto]]></category>
		<category><![CDATA[Crimes]]></category>
		<category><![CDATA[F14.2 - dependência de crack]]></category>
		<category><![CDATA[Transtornos mentais]]></category>

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		<description><![CDATA[Rodrigo é dependente de drogas e foi preso por furto. Arrancava um padrão de energia &#8211; aqueles medidores que ficam do lado de fora de casa, onde os técnicos da companhia elétrica verificam o consumo mensal. Um novo custa 600 reais &#8211; Rodrigo venderia por 90 e compraria crack com o dinheiro. O padrão que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Rodrigo é dependente de drogas e foi preso por furto. Arrancava um padrão de energia &#8211; aqueles medidores que ficam do lado de fora de casa, onde os técnicos da companhia elétrica verificam o consumo mensal. Um novo custa 600 reais &#8211; Rodrigo venderia por 90 e compraria crack com o dinheiro. </p>
<p>O padrão que furtava era da casa de sua mãe, isto é, da própria casa. Comentou o policial que o acompanhava à perícia: &#8220;Roubar da mãe não é crime, mas o padrão pertence à companhia de energia&#8230;&#8221;</p>
<p>Mais um crime bobo gerando um processo volumoso. </p>
<p>Rodrigo mora em uma cidade pequena e, nestas cidades, geralmente não se tem acesso a drogas. Involuntariamente, o dependente preso nestas cadeias acaba sendo submetido a uma espécie de tratamento contra a dependência. É obrigado a conviver com sua abstinência, suportá-la e superá-la. Seria uma grande oportunidade de abandonar as drogas. Porém, não é um tratamento voluntário e o preso não encara o processo como uma oportunidade. Ao sair, volta a conviver com os amigos usuários e o consumo dos entorpecentes se restabelece. Rodrigo mesmo diz que não pensa em parar de usar o crack: &#8220;Talvez quando eu arrumar uma mulher&#8230;&#8221; Desde que ela não seja usuária, não é?</p>
<p>A entrevista com Rodrigo segue relativamente bem. Não notei sinais de grandes sequelas mentais por conta do uso do crack. Porém, o policial que com ele convive me disse que Rodrigo &#8220;tem hora que não diz coisa com coisa. Agora mesmo tava falando que quer matar gente gorda.&#8221;</p>
<p>Lembrei-me imediatamente do último <a href="http://oserialkiller.com.br/as-esganadas-jo-soares/" target="_blank">livro de Jô Soares, As Esganadas</a>, onde o personagem principal é um serial killer de gordas. </p>
<p>Vamos lá, então, investigar esta ponta desfiada pelo policial&#8230; Que história é esta, Rodrigo?</p>
<p>&#8220;Não, não é isso&#8230; É o seguinte. Tem o vagabundo que rouba, né? E tem o vagabundo que fica pedindo, pedindo comida. Só que tem uns que pedem comida o tempo inteiro! O cara ganhou comida em uma casa, vai e pede na outra. Fica comendo o dia inteiro. Pode reparar que só tem dois tipos de mendigos: os magros, noiadão, e os gordos. Esses gordos são muito safados, porque o cara já ganhou comida! É como se tivesse roubando comida do outro, entende? Porque aí vai o outro magro na casa pedir comida e não ganha, porque o cara fala: &#8216;Ah, já dei comida hoje!&#8217; Aí fica o cara passando fome por conta desses mendigos gordos safados!&#8221;  </p>
<p>Faz sentido! </p>
<p>&#8220;Pode reparar, não tem mendigo médio, ou é magrinho ou é gordo.&#8221; </p>
<p>Isto nunca reparei, mas prestarei atenção a partir de agora, Rodrigo.</p>
<p>Que há ética no crime, não é novidade. Os filósofos deveriam se debruçar mais sobre ela, mas aparentemente, quando querem definir a essência do humano, se esquecem que loucos e criminosos também fazem parte da raça. Ou não?</p>
<p>Pergunto:</p>
<p>- E você pretende matar os mendigos gordos?</p>
<p>&#8220;Não é pretender&#8230; É só vontade, entende?&#8221;</p>
<p>Compreendo, mas não entendo. Me entendem?</p></div>
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		<title>OS DELINQUENTES DE LONDRES</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2011 17:29:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 157 - roubo]]></category>
		<category><![CDATA[Crimes]]></category>
		<category><![CDATA[outros]]></category>

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		<description><![CDATA[Os jovens em Londres quebraram tudo! Não só quebraram, mas incendiaram e, especialmente, roubaram. Agora as prisões inglesas estão superlotadas. Tudo começou quando a polícia matou um traficante. Um protesto em frente à delegacia cresceu, a polícia ficou quieta para não piorar a situação e, frente a inércia policial, os manifestantes começaram atos de vandalismo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Os jovens em Londres quebraram tudo! Não só quebraram, mas incendiaram e, especialmente, roubaram. Agora as prisões inglesas estão superlotadas. </p>
<p>Tudo começou quando a polícia matou um traficante. Um protesto em frente à delegacia cresceu, a polícia ficou quieta para não piorar a situação e, frente a inércia policial, os manifestantes começaram atos de vandalismo. Logo a juventude londrina em peso se empolgou e a confusão tomou conta da cidade. Logo se alastraria para outras localidades da Inglaterra.</p>
<p>Os românticos vêem nisto apenas uma rebelião contra o sistema. Um articulista brasileiro chegou a dizer que isto é democracia &#8211; obviamente, não estaria tão exultante se a casa dele tivesse sido incendiada, se a loja de sua família tivesse sido saqueada.</p>
<p>Os reacionários vêem apenas delinquentes, bandidos. Que protesto social é este onde o principal objetivo é roubar um Ipod, um tênis Nike? Onde a quebradeira era marcada através do Blackberry como se fosse uma festa?</p>
<p>No meu modo de ver, os dois lados estão meio-certos. E meio-errados, obviamente. Há insatisfação com a desigualdade? Claro, como em qualquer lugar. Mas, bem, convenhamos que a Inglaterra não é, digamos, a Somália. Há, portanto, uma generosa dose de malandragem no protesto.</p>
<p>A Justiça ficou do lado dos conservadores, e tem sido muito rápida em condenar os jovens. </p>
<p>Quatro anos de prisão é demais para um jovem de 18 anos que só roubou um tênis, suplicam seus pais. Não, não é muito. Nem pouco. A lei apenas foi cumprida. E o exemplo precisa ser dado. É o que pensa o juiz.</p>
<p>Penso um pouco diferente. À medida que vou ficando mais velho, mais vejo os jovens como absolutamente imperfeitos. E acredito que quando realmente estiver velho olharei para trás e pensarei a respeito de mim: como eu era bobo e inocente em 2011, no alto dos meus 34 anos&#8230; Assim, acredito que as penas deveriam ser proporcionais à idade. A legislação atua de modo maniqueísta: ou você tem 17 anos e 11 meses e pode tudo, ou tem 18 anos e 1 mês e não pode mais nada. O desenvolvimento psicológico não se dá desta maneira, ninguém se torna sábio e responsável de um dia para outro. A lei, portanto, não está pareada com a realidade. Um jovem de 17 anos já deveria ser capaz de responder quase tanto quanto um de 18. Mas de um jovem de 18 anos não se deveria esperar a mesma responsabilidade de um senhor de 38, 48 ou 58 anos. </p>
<p>Mas o ponto mais importante, neste caso dos conflitos em Londres, do ponto de vista da Psicologia e da Psiquiatria Forense, é outro. Os saques não foram a ação somada de vários bandidos. Foram praticados por pessoas que, até então, não tinham ficha criminal, que até então eram honestos. A psicologia de massas explica o acontecido. Alguns jovens realmente com tendências delinquentes começam os furtos e os outros apenas vão junto. Assim, não se trata de criminosos comuns a maioria destes jovens presos. </p>
<p>Estas atenuantes psicológicas não estão sendo consideradas, em Londres. Talvez os psicólogos e psiquiatras de lá tiveram seus consultórios queimados também.</p>
<p>PS: deveríamos parar de usar o termo vandalismo. É injusto com a memória dos vândalos, povo germânico que vivia de fora do Império Romano. Todos os que estavam de fora do Império eram chamados bárbaros, outro termo inadequado atualmente. Os vândalos eram destruidores? Sim, mas nenhum império nunca foi construído apenas com diplomacia e rosas. Muito menos o Romano.
</p></div>
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		<title>TROÇO COMPLICADO!</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Aug 2011 14:20:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[F42 - transtorno obsessivo-compulsivo]]></category>
		<category><![CDATA[Perícias cíveis]]></category>
		<category><![CDATA[simulação]]></category>

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		<description><![CDATA[Perícia é um troço complicado! Sei que deveria elaborar esta frase de forma mais elegante, mas foi assim que exatamente pensei após terminar de avaliar o senhor Radamés. Radamés trabalhava em um banco. Tinha que ser bem esperto na contagem do dinheiro. Se errasse&#8230; bem, bancos não gostam de tomar prejuízo&#8230; É atribuída ao dramaturgo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Perícia é um troço complicado! Sei que deveria elaborar esta frase de forma mais elegante, mas foi assim que exatamente pensei após terminar de avaliar o senhor Radamés. </p>
<p>Radamés trabalhava em um banco. Tinha que ser bem esperto na contagem do dinheiro. Se errasse&#8230; bem, bancos não gostam de tomar prejuízo&#8230; É atribuída ao dramaturgo Bertolt Brecht a seguinte frase: O que é roubar um banco, comparado a abrir um? </p>
<p>Ao final do dia, então, com medo, Radamés refazia as contas, conferia mais uma vez o caixa, e mais uma vez&#8230;</p>
<p>Acabou desenvolvendo um transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), segundo atestam psiquiatras que o vêem há alguns anos. Radamés trouxe os laudos. Não trabalha há 6 anos. Estava &#8220;encostado&#8221; pelo INSS, até que o governo resolveu que Radamés tinha condições de voltar a trabalhar. Radamés contesta o INSS e a peleja caiu em minhas mãos. </p>
<p>Radamés conta uma linda história de transtorno obsessivo-compulsivo. Caso de livro. &#8220;Não tenho condições de trabalhar porque demoro horas para chegar a um lugar, por conta de tudo o que tenho de verificar antes de sair de casa&#8230; Se a janela está fechada, se a porta foi trancada&#8230; E passo horas no banho&#8230; Será que já lavei as costas? Vou e lavo de novo&#8230;&#8221;</p>
<p>Perícia é um troço complicado porque, se Radamés chegasse em meu consultório e contasse a mesma história, eu não lançaria a mínima suspeita sobre sua honestidade. No consultório, as pessoas vão porque querem se tratar &#8211; embora algumas, no final da consulta, lancem aquela capciosa pergunta: Pode me afastar do trabalho por uns dias?</p>
<p>A mesmíssima história, portanto, é vista de maneira bem diferente pelo clínico e pelo perito. O perito começa a se fazer perguntas como: mas que transtorno é este que seis anos após parar de trabalhar, após seis anos se tratando, não sara, não melhora? </p>
<p>Eu não acredito que Radamés esteja inventando completamente a doença. Pensar isto seria pensar: ele simplesmente não quer trabalhar. Porém, não trabalhar também dá trabalho! Consultas, perícias, ganhos reduzidos&#8230; Ninguém quer isto também. Uns dias de atestado, ótimo, quem não quer? A preguiça também é uma doença, costumo dizer, por isto não vejo com desprezo ou raiva, como alguns colegas, aquele paciente que quer uns dias de folga. Mas ter 40 ou 45 anos e querer se aposentar indicaria um funcionamento psicológico muito mais doentio. Em troca de não trabalhar, ganhar pouco, ser carimbado como inválido, ser visto como um possível impostor&#8230;</p>
<p>Perícia é um troço complicado porque colegas viram Radamés e o diagnosticaram como portador de transtorno obsessivo-compulsivo &#8211; e agora vou eu contrariar todos e dizer que ele não tem nada?</p>
<p>Mas não acredito que Radamés invente por completo seus sintomas. É possível que tenha desenvolvido o TOC por conta da pressão do trabalho? Sim. É possível que o TOC tenha permanecido por todos estes anos, mesmo com tratamento? Sim. </p>
<p>Por outro lado, é possível que seja tão incapacitante? Não acredito, no caso de Radamés. Olho para ele e não sinto honestidade completa. Acho que está exagerando. Em minha opinião, ele tem sim sintomas, algo que dificulta mesmo trabalhar, mas, para não correr o risco de acharem que tem condições plenas de voltar à labuta, exagera o sofrimento, na esperança de convencer de que não tem condição alguma. </p>
<p>Não tenho evidências, portanto, para concluir por uma incapacidade completa. Muito menos para dizer que a incapacidade parcial seja permanente, eterna, pois não sei se toda espécie de tratamento foi tentada. </p>
<p>Infelizmente, portanto, terei de contrariar o desejo de Radamés. Perícia é um troço complicado&#8230;</p>
</div>
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		<title>A ESSÊNCIA DO LADRÃO</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Aug 2011 19:26:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 155 - furto]]></category>
		<category><![CDATA[F31 - transtorno bipolar do humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Tânia possui transtorno bipolar do humor. O diagnóstico foi fácil: trouxe alguns laudos (já esteve até internada) e, na própria entrevista, estava levemente exaltada, falando um pouco alto, com o pensamento um pouco confuso, às vezes rindo fora de hora. É acusada de desvio de dinheiro de um banco, no qual trabalhava. &#8220;Mas não foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Tânia possui transtorno bipolar do humor. O diagnóstico foi fácil: trouxe alguns laudos (já esteve até internada) e, na própria entrevista, estava levemente exaltada, falando um pouco alto, com o pensamento um pouco confuso, às vezes rindo fora de hora.</p>
<p>É acusada de desvio de dinheiro de um banco, no qual trabalhava. &#8220;Mas não foi nem 2 mil reais!&#8221;, ela me repetiria umas três vezes. Não sei se para me convencer que não era um crime assim tão importante ou se o eco era um sintoma da hipomania (o nome técnico deste humor exaltado). </p>
<p>O réu frequentemente pensa que o psiquiatra, de alguma forma, é o juiz. Assim, tentam convencê-lo a inocentá-lo, diminuir sua pena. &#8220;Mas não foi nem 2 mil reais!&#8221; Mesmo se tivessem sido 10 mil ou 100 mil, minhas conclusões, neste caso, seriam as mesmas.</p>
<p>A primeira, como dito, é que ela tinha um transtorno na época do fato. </p>
<p>Porém, o transtorno bipolar, na verdade, é tripolar: há uma fase depressiva, uma fase maníaca (exaltada) e uma fase neutra, sadia. O furto seria mais provável na fase maníaca que na depressiva. Na depressiva, seria mais esperado que a paciente desse seu dinheiro a alguém, pensando que iria morrer logo, ou algo assim.</p>
<p>A parte da entrevista que mais gosto é o momento de colher a versão do fato com o réu. É esta hora a minha chance de realmente entrar em contato com um criminoso, entrar em sua mente, entender o que leva o indivíduo a cruzar a linha. O pensamento de Tânia era confuso, mas, ao descrever o fato, surpreendeu-me: lembrava-se de detalhes (o crime ocorreu há vários anos &#8211; ah, a Justiça brasileira&#8230;), narrou a sequência de eventos com exatidão.</p>
<p>Isto é um indício extremamente forte de que, na época dos fatos, não estava maníaca, e sim eutímica (humor normal), pois, se estivesse maníaca, dificilmente se lembraria dos acontecimentos com exatidão.</p>
<p>E mais: Tânia conseguiu racionalizar todo o ocorrido. Foi um furto consciente. &#8220;Vi que minha colega tava pegando. Resolvi pegar também, um pouquinho. Não foi nem 2 mil reais!&#8221;</p>
<p>- Me explique melhor&#8230; Você sabia que era crime, que podia acontecer algo errado&#8230;</p>
<p>Ainda faltava uma pecinha, para eu entender o que levou aquela jovem mulher a se tornar uma ladra. Ou uma ladrazinha (não foram nem 2 mil reais!)&#8230;</p>
<p>- Eu tinha um caso com o gerente. Achei que, se alguém percebesse, eu tava coberta&#8230;</p>
<p>Bingo! </p>
<p>Eutímica. Entendimento do caráter ilícito dos fatos preservado, assim como a capacidade de determinar-se de acordo com este entendimento. </p>
<p>Em resumo: fez porque quis.</p>
<p>(Porém, estando doente agora, necessita tratamento, e não cadeia.)
</p></div>
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		<title>TODOS OS CRIMES DO MUNDO</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Aug 2011 18:40:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 233 - ato obsceno em público]]></category>
		<category><![CDATA[psicodiagnóstico]]></category>

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		<description><![CDATA[José Joaquim é acusado de praticar ato obsceno em público, artigo 233 do Código Penal. Aos fatos: segundo a denúncia, estava se masturbando em um ponto de ônibus. Uma menina que passava com a mãe viu. A mãe chamou a Polícia. Dou uma lida no processo antes de iniciar a perícia. Encontro uma surpreendente ficha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">José Joaquim é acusado de praticar ato obsceno em público, artigo 233 do Código Penal. Aos fatos: segundo a denúncia, estava se masturbando em um ponto de ônibus. Uma menina que passava com a mãe viu. A mãe chamou a Polícia.</p>
<p>Dou uma lida no processo antes de iniciar a perícia. Encontro uma surpreendente ficha de antecedentes criminais. Além de outras acusações similares, José Joaquim já foi fichado nos seguintes artigos:<br />
* 147: ameaça;<br />
* 155: furto;<br />
* 157: roubo:<br />
* 180: receptação;<br />
* 213: estupro.</p>
<p>José Joaquim talvez planeje cometer todos os crimes do mundo. </p>
<p>Peço à secretária que solicite sua entrada. Ou vem aí um bandidão muito perigoso&#8230; ou alguém com um transtorno mental muito grave&#8230;</p>
<p>Passados alguns minutos de entrevista, vejo que não é uma coisa nem outra. O que complica para o meu lado, dificulta uma conclusão. </p>
<p>Algum problema ele tem. Já foi até internado algumas vezes. Segundo a mãe, &#8220;tive dez filhos, não sei dizer o que ele tem, mas é o único diferente&#8230;&#8221;</p>
<p>José Joaquim já foi amasiado algumas vezes. Diz que as mulheres o abandonaram porque tem incontinência urinária e acaba urinando na cama. Mas isto não seria motivo suficiente para o fim de várias relações &#8211; ou seria?</p>
<p>Ele parece gostar de falar sobre este problema. Entendo o motivo quando pergunto sua versão dos fatos os quais é acusado. Segundo ele, estava apenas urinando, pois não conseguiu segurar, e não se masturbando. </p>
<p>Quase finalizada a entrevista, ele faz questão de levantar um pouco a camisa e mostrar um saco coletor, com urina. &#8220;Mijo em qualquer lugar, doutor! Não consigo segurar&#8230; Aí vem esses problemas aí com a Polícia&#8230;&#8221;</p>
<p>Não consigo tecer uma conclusão clara sobre o caso.</p>
<p>José Joaquim já esteve na Junta Médica anteriormente. Avaliado por outro psiquiatra. Que solicitou um psicodiagnóstico. Que ainda não foi feito. </p>
<p>É o que eu também faria, solicitar socorro dos psicólogos. </p>
<p>Aguardarei o laudo deles. Esta história continua&#8230;
</p></div>
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		<title>O NOME DO FILHO</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jul 2011 00:34:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 121 - homicídio]]></category>
		<category><![CDATA[F14.2 - dependência de crack]]></category>
		<category><![CDATA[parricídio]]></category>

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		<description><![CDATA[Waldemar matou o pai. No dia do crime, houve uma discussão por causa de um celular e, segundo o periciando, o pai atacou-o primeiro, com um facão. Não houve testemunhas. O pai morreu com golpes de uma barra de ferro. Waldemar é dependente de crack e esta dependência reduziu seu controle de impulsos. Antes do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Waldemar matou o pai. </p>
<p>No dia do crime, houve uma discussão por causa de um celular e, segundo o periciando, o pai atacou-o primeiro, com um facão. Não houve testemunhas. O pai morreu com golpes de uma barra de ferro.</p>
<p>Waldemar é dependente de crack e esta dependência reduziu seu controle de impulsos. Antes do crime, vinha agressivo com todos os familiares. Lá vou eu ajudar a reduzir a pena de um parricida&#8230;</p>
<p>Por mim, encerraria esta história aqui. Waldemar matou o pai, isto diz quase tudo.</p>
<p>Mas Waldemar se chama Waldemar Filho. Waldemar matou o homem que um dia resolveu dar-lhe seu nome. Talvez isto devesse ser um agravante.
</p></div>
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		<title>UMA FRASE</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jul 2011 19:56:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 157 - roubo]]></category>
		<category><![CDATA[F14.2 - dependência de crack]]></category>

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		<description><![CDATA[Nos meus laudos, tento colocar ao máximo as falas do examinando exatamente como foram ditas, incluindo os erros de português. Isto é importante para criar uma imagem viva do periciando. Se utilizasse apenas os termos técnicos, os laudos ficariam extremamente parecidos. Em essência, talvez não se perdesse muito, mas os detalhes às vezes são importantes, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Nos meus laudos, tento colocar ao máximo as falas do examinando exatamente como foram ditas, incluindo os erros de português. Isto é importante para criar uma imagem viva do periciando. Se utilizasse apenas os termos técnicos, os laudos ficariam extremamente parecidos. Em essência, talvez não se perdesse muito, mas os detalhes às vezes são importantes, podem mudar uma conclusão. </p>
<p>Josimar é acusado de roubo. Aliás, é réu confesso. Com uma garrafa partida, ameaçou algumas pessoas na porta do banheiro de uma festa, pedindo dinheiro. </p>
<p>Josimar diz que é dependente de crack. Que estava louco no dia, em abstinência, que queria dinheiro para comprar mais droga. Conseguiu 80 reais no roubo, mas logo foi pego.</p>
<p>É simples dizer-se dependente de qualquer coisa. Para o diagnóstico, basta que se preencha três de seis critérios, segundo a CID-10 (Classificação Internacional de Doenças, 10a edição):</p>
<p>(a) forte desejo para consumo da droga;<br />
(b) dificuldades em limitar o consumo;<br />
(c) estado de abstinência fisiológica;<br />
(d) tolerância (necessidade de quantidades progressivamente maiores);<br />
(e) abandono de interesses outros em favor do uso da substância;<br />
(f) persistência no uso, apesar da evidência de conseqüências nocivas.</p>
<p>Ou seja, para enganar o psiquiatra, basta que o periciando diga que usa a droga há alguns meses, cada vez mais, que não consegue parar, que quando tenta se sente mal etc.</p>
<p>Basta isto? Não. É nos tais detalhes, na tal fala direta do periciando é que observamos se a história contada tem ou não consistência. </p>
<p>Josimar me disse algo: &#8220;O crack é o seguinte: uma pedra é muito, cem é pouco.&#8221;</p>
<p>É uma frase inteligente, paradoxal. Fiquei com vontade de perguntar se de sua autoria (essa minha mania de colecionar frases&#8230;), mas não o fiz. Desconfio que tenha escutado de alguém, que seja quase um lema entre os usuários, embora Josimar mesmo seja inteligente, universitário.</p>
<p>A frase foi dita casualmente, no meio de várias outras. Mas é um daqueles detalhes que acabam sendo importantes para a confiança do diagnóstico. </p>
<p>- Me explique melhor.<br />
- Uma já é demais, né? Você tá usando esse produto químico&#8230; Aí quando começa, não quer parar&#8230;</p>
<p>É uma frase que só pode ser elaborada por quem tem conhecimento vivo do que é ser dependente de crack. Se não foi criada por Josimar, no mínimo ele a ouviu de alguém próximo, concordou com ela, guardou-a. </p>
<p>Por este e outros detalhes, fechei o laudo de Josimar com o diagnóstico de dependência de crack e estabelecendo que o crime tem completa relação com a dependência. </p>
<p>Josimar está preso há alguns meses, por conta do ato. Diz que na cadeia, a princípio, se afundou ainda mais na droga. &#8220;Mas quando vi meus pais chorando, tendo que se esforçar pra arrumar dinheiro pra pagar minhas dívidas, resolvi parar. Ainda tive umas recaídas, mas tive uns problemas com uns caras lá e pedi pra ir pro Módulo de Segurança. Agora tou sem usar, lá não entra, quero parar de vez. Me ferrei, ferrei minha vida por conta de menos de 100 reais&#8230;&#8221;</p>
<p>Com este laudo, logo Josimar deverá estar livre novamente. Quanto maior o tempo sem a droga, maior seria a chance de ele não ter uma recaída. Talvez fosse melhor para ele ficar mais tempo preso, portanto. Sem pensar nisto, ele quer sair logo da cadeia. Às vezes o perigo está de fora das grades, e não dentro.
</p></div>
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		<title>QUER PAGAR QUANTO?</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jul 2011 19:14:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fernando César</dc:creator>
				<category><![CDATA[artigo 121 - homicídio]]></category>
		<category><![CDATA[F10.2 - alcoolismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Josiel é acusado de ter matado um amigo, um grande amigo, em uma pequena bebedeira na casa deste. Josiel nega. O amigo já vinha bem doente, tinha até &#8220;um buraco na garganta&#8221; (traqueostomia), mas mesmo assim não largava a cachaça e o cigarro. Josiel também bebe muito. Segundo seu pai, &#8220;Quando ele bebe, vira o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div align="justify">Josiel é acusado de ter matado um amigo, um grande amigo, em uma pequena bebedeira na casa deste. Josiel nega. O amigo já vinha bem doente, tinha até &#8220;um buraco na garganta&#8221; (traqueostomia), mas mesmo assim não largava a cachaça e o cigarro. Josiel também bebe muito. Segundo seu pai, &#8220;Quando ele bebe, vira o Capeta. Quando não bebe, fica até mais calmo. O problema é que bebe todo dia.&#8221; </p>
<p>Segundo a acusação, Josiel, embriagado, deu uma pancada na cabeça do amigo, e esta foi a causa da morte. Já Josiel diz que nem estava na casa do amigo na hora que este se machucou. Tinha saído para buscar algo e, quando voltou, encontrou o amigo passando mal. &#8220;Inclusive fui eu que liguei pra ambulância.&#8221; Fala que é contradita por um depoimento de uma mulher, que diz que ela é quem chegou  à casa do amigo de Josiel, viu-o passando mal e chamou o serviço de saúde. </p>
<p>Até o pai de Josiel acha que foi o filho quem matou o amigo. &#8220;Mas o cara já vinha muito doente, muito doente mesmo.&#8221;</p>
<p>Quando o réu não confessa o crime, as conclusões do psiquiatra são virtuais, potenciais, condicionais. Se o réu cometeu o crime&#8230; não foi por conta de um transtorno mental, pois não o tinha&#8230; ou: o transtorno que tinha não teve influência neste crime&#8230; ou: o transtorno diminuiu ou aboliu sua capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou a capacidade de determinar-se de acordo com este entendimento&#8230; Se ele cometeu o crime. Ou melhor: se, no julgamento, considerar-se que o réu foi o autor do crime.</p>
<p>É estranho que o exame de insanidade mental seja feito antes do julgamento. Mas são os procedimentos da Justiça brasileira (não sei como funciona em outros países). Se o réu é inocentado, o exame foi em vão. Se o exame fosse realizado apenas para os condenados, teríamos menos trabalho acumulado (os laudos seriam liberados com mais rapidez) e nenhuma perícia seria inútil (embora mesmo as inúteis possam ter alguma influência no resultado do julgamento).</p>
<p>Por outro lado, se o exame de insanidade fosse realizado após o julgamento, teríamos situação em que o réu seria condenado e, com o exame, se concluiria que ele era inimputável, que não poderia ser julgado. Ou seja, o julgamento é que teria sido em vão. Considerando-se a lentidão da Justiça brasileira (e o salário de um juiz comparado ao de um perito), é melhor que ocorram perícias do que julgamentos inúteis.</p>
<p>Continuando a investigação, Josiel conta que tem irmãos com problemas mentais. &#8220;Meu irmão já quebrou duas televisões. Minha mãe também é louca, já quebrou televisão, janela&#8230;&#8221;</p>
<p>O pai de Josiel diz que quando o réu bebe, fala sozinho e quebra tudo em casa: &#8220;Já foi som, televisão, rádio&#8230;&#8221; Em uma psicose, é comum que o acometido escute vozes vindas da tevê, ou ache que a programação está querendo lhe dizer algo, ou sinta que o aparelho está lhe comandando&#8230; Desta forma, é até compreensível que a televisão seja sempre a vítima do surto. Mas descobri que me enganei, a televisão foi quebrada por um motivo bem prosaico. </p>
<p>- Quebrou por quê?<br />
- Meu time perdeu, fiquei com raiva.<br />
- Pra que time você torce?<br />
- Pro Vasco.</p>
<p>Haja televisão, pensei com meus botões. Esta família é a alegria das Casas Bahia. Tão pobres, com tantas dificuldades, que o pai trabalha apenas para repor as televisões quebradas. &#8220;Ele me dá trabalho demais, demais da conta. É só problema&#8230;&#8221;</p>
<p>Conclui que Josiel é alcoolista e que o transtorno reduziria sua capacidade de auto-controle para o crime o qual é acusado. Portanto, se considerarem-no culpado, deverá obter uma redução de pena. Preso, talvez agora o pai consiga assistir sua televisão por uns dias em paz.
</p></div>
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