CHORO SEM LÁGRIMAS


Ricardo matou a mulher. Segundo a denúncia, a estrangulou. Segundo ele, após uma discussão. A última, claro, de muitas. “Ela vinha mexendo muito com minha auto-estima, me chamava de inútil, perdi o controle. Saímos nos tapas, rolamos no chão… Quando vi, estava desmaiada… Depois vi que estava morta…”

Contando isto, Ricardo apóia a cabeça na mesa e começa a chorar. Aguardo alguns segundos e faço outra pergunta. Ele levanta a cabeça para responder e, para minha surpresa, seus olhos estão secos, não há lágrima nenhuma. Hum, interessante, não?

Esta falsidade bate com outros aspectos da denúncia, que fala em “motivo fútil”, “sem chance de defesa”, “friamente”… Após matar a mulher, Ricardo amarrou seu corpo, colocou-o em um saco e o jogou em um rio. Foi então à casa da sogra e disse que a esposa estava desaparecida.

Ricardo tenta se explicar: “Eu não sabia o que fazer. Ia dizer o quê, que matei sua filha?”

Realmente, as denúncias às vezes são mais frias que os próprios criminosos. Comumente as acusações pintam os bandidos como psicopatas que agem sem motivo algum. Aliás, nem mesmo os psicopatas agem sempre por prazer, como pensa o senso comum. Geralmente seus atos são reações altamente desproporcionais a alguma contrariedade, a algum problema.

Que motivo frio teria Ricardo para matar a mulher? Ela não era rica, não havia dinheiro envolvido. A história que ele contava fazia sentido. O que destoava era apenas aquele choro sem lágrimas.

Continuo a perícia, buscando outras evidências de psicopatia. Até que pergunto a Ricardo sobre trabalho. “Sou aposentado, desde que sofri um acidente de moto. Perdi a audição de um ouvido e a visão de um olho. Com meu olho esquerdo não enxergo nada. Ficou estas sequelas. Com o olho que eu enxergo, eu não consigo chorar. Eu só choro com o olho que não enxerga.”

Naquele momento em que Ricardo levantou a cabeça, realmente ele passou um dedo sob o olho esquerdo. Não vi lágrima ali, mas teria sido Ricardo mais rápido em enxugá-la? Talvez, como sequela, o seu choro agora fosse apenas um sutil, quase imperceptível, molhar os olhos?

A frase ficou ecoando na sala por alguns segundos, poética, pois eu apenas pensava. “Eu só choro com o olho que não enxerga.”

O que ele vê não o faz chorar. Ele sofre pelo que não vê.

Um paradoxo freudiano ou oftalmológico?

E eu, o que via ali? Após analisar alguns documentos que ele trouxe, que comprovavam o acidente, as lesões e a aposentadoria, vi que tinha que dar um crédito a suas palavras.

O que, o paradoxo agora é forense, não o beneficiaria em nada. Se não era um psicopata, Ricardo não teria benefício algum, pois tampouco tinha qualquer outro transtorno mental.

Encerrada a perícia, imaginei a solidão que sentiria Ricardo, ao ser condenado e, mais uma vez, chorar sem lágrimas. Em um crime, sempre há duas vítimas. Uma já estava morta. A outra, Ricardo, iria amargar longos anos em uma cela. No abandono absoluto. Quem iria se dispor a amparar a sua aparente fingidez?

  1. #1 by Igor Gomes on February 16, 2012 - 1:38 am

    Fantástico o site! Sou residente em psiquiatria e pretendo trabalhar na área forense, achei o site preparando uma aula sobre perícias. Achei fantástico o caso (assim como todos os outros). Chorar por um olho que não vê a realidade circunstante é mais que um paradoxo poético (ou freudiano, sei lá). É a antítese do mister pericial: como perito você pôde melhor enxergar, utilizando-se de dois olhos que bem devem ver, a realidade factual por meio um olho que não vê, o do paciente.

    Um abraço,

    Igor Emanuel Vasconcelos e Martins Gomes

    OBS: Ah, fiquei curioso a respeito do livro que pretende lançar!

(will not be published)